Módulo 7 · 2 de 4

Projeto final: auditoria técnica

Leitura: ~5 min

Ao longo deste curso, você aprendeu sobre front-end e back-end, APIs, design tokens, acessibilidade, performance, estados de erro, CLI e muito mais. Mas aprender e aplicar são coisas diferentes. Esse é o momento de colocar tudo junto.

Vou te dar um roteiro de auditoria técnica em 6 passos que você pode aplicar a qualquer produto digital. Pode ser um app que você usa, um site que você admira, ou até este próprio curso. Você não vai quebrar nada. Está só investigando, como uma pesquisadora que analisa um artefato com curiosidade e método.

Escolha seu produto

Antes de começar, escolha um produto digital que você usa com frequência. Pode ser o site do seu banco, um app de delivery, uma plataforma de streaming, ou qualquer ferramenta web que você conheça bem. Quanto mais familiar, melhor, porque você já conhece os fluxos e vai conseguir focar na análise técnica em vez de gastar tempo entendendo a interface.

Se estiver sem ideia, pode usar este próprio curso como objeto de análise. Funciona perfeitamente.

Roteiro de auditoria em 6 passos

Passo 1: Identifique a tecnologia front-end

Abra o DevTools (F12 ou Ctrl+Shift+I) e olhe o código-fonte. Algumas pistas:

  • O HTML parece limpo e semântico, com tags como <header>, <main>, <article>? Ou é uma sopa de <div>s sem significado?
  • Framework é uma fundação pronta sobre a qual os devs constroem o produto, para não começar do zero. Next.js (sobre a biblioteca React) e Nuxt (sobre o Vue) são os mais comuns, e dá para reconhecê-los pelas pistas que deixam no código: aparece algo como __next, _nuxt ou um <div id="root"> quase vazio seguido de vários arquivos JavaScript? Isso indica que o site usa um framework moderno como Next.js ou Nuxt.
  • O JavaScript é minificado (código comprimido, ilegível)? Quase todos os sites profissionais fazem isso.

Não se preocupe em acertar com certeza. O exercício é observar e levantar hipóteses. Anote o que encontrou.

Passo 2: REST ou GraphQL?

Vá para a aba Network no DevTools. Recarregue a página e observe as requests que aparecem. Filtre por "Fetch/XHR" para ver apenas as chamadas de API.

  • Se você vê URLs como /api/users, /api/products/123, provavelmente é REST. Cada endpoint tem uma URL específica.
  • Se você vê requests todas indo para /graphql com diferentes payloads no body, é GraphQL.

Clique em algumas requests e olhe o que volta na aba "Response". São dados JSON. Esses são os dados que alimentam a interface que você vê.

Passo 3: Tem design tokens?

No DevTools, vá para a aba Elements. Selecione qualquer elemento visual (um botão, um título, um card) e olhe os estilos aplicados no painel à direita.

  • Procure por var(-- nos valores de CSS. Se você vê coisas como color: var(--color-primary) ou padding: var(--spacing-md), o produto usa design tokens (ou pelo menos CSS custom properties, que é a base técnica dos tokens).
  • Se todos os valores são números diretos (color: #3b82f6, padding: 16px), o produto provavelmente não tem um sistema de tokens estruturado.

Lembre-se: design tokens são decisões de design traduzidas em variáveis reutilizáveis. Encontrar var(-- no CSS é um bom sinal de maturidade técnica.

Passo 4: Teste a acessibilidade

Largue o mouse. Sério. Navegue pelo site usando apenas a tecla Tab para avançar entre elementos e Enter para ativar.

  • O foco visual é claro? Você consegue ver em qual elemento está? Tem um contorno (outline) visível?
  • Consegue chegar em todos os botões e links? Ou fica preso em algum lugar?
  • Os menus dropdown abrem com Tab/Enter? Ou só funcionam com hover do mouse?

Esse teste simples de 2 minutos revela muito sobre a qualidade de acessibilidade de um produto. E você não precisa instalar nada.

Passo 5: Rode o Lighthouse

No DevTools, vá para a aba Lighthouse. Selecione as categorias "Performance" e "Accessibility" e clique em "Analyze page load". Se travar em alguma etapa, a documentação oficial do Lighthouse mostra o passo a passo com telas.

  • Qual o score de Performance? Acima de 90 é excelente. Abaixo de 50 indica problemas sérios.
  • Qual o score de Accessibility? Olhe os problemas listados. Faltam alt texts nas imagens? Os contrastes de cor são insuficientes?
  • O LCP (Largest Contentful Paint) é menor que 2.5 segundos? Se não, a página está lenta para o usuário.

Anote os números. Eles contam uma história sobre as decisões de design e engenharia daquele produto.

Passo 6: Desative o Wi-Fi

Desconecte a internet (desative o Wi-Fi ou coloque o celular em modo avião) e tente usar o produto.

  • O que acontece? Aparece uma mensagem? O conteúdo anterior continua disponível?
  • Tem um banner de "Você está offline"?
  • Se você tenta enviar um formulário, o erro é claro?

Lembre-se do que vimos em estados de erro: os melhores produtos são aqueles que tratam o caminho triste com a mesma atenção do caminho feliz.

Como apresentar sua auditoria

Se você quiser transformar esse exercício em algo para o portfólio, organize assim:

  • Produto analisado: nome, tipo, público-alvo.
  • Metodologia: os 6 passos que você seguiu.
  • Achados: o que você descobriu em cada passo. Screenshots ajudam.
  • Recomendações: se você fosse o designer desse produto, o que melhoraria?

Esse tipo de análise é exatamente o que fazem em processos seletivos de Product Design. Mostrar que você sabe olhar para um produto com olho técnico, identificar gaps e propor melhorias te posiciona muito à frente de quem só entrega layouts.